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sábado, 21 de março de 2015

Ex-atleta conta como despachou a si mesmo para a Austrália em caixote de madeira

Spiers usou sua experiência no despacho de bagagens para fazer um envio a cobrar (Foto: Marcus McSorley/BBC)Spiers usou sua experiência no despacho de bagagens para fazer um envio a cobrar (Foto: Marcus McSorley/BBC)
O ano era 1964 e Reg Spiers, um atleta australiano do lançamento de dardo estava em Londres para uma tentativa desesperada de se curar de uma lesão a tempo dos Jogos Olímpicos de Tóquio.
As sessões de fisioterapia não deram resultado e, para tornar a vida de Spiers ainda mais miserável, ele teve roubada sua carteira em Londres, com todas as suas economias feitas com o trabalho temporário no aeroporto de Heathrow - naquela época, o amadorismo ainda imperava nos esportes olímpicos.
Além das saudades, o australiano queria voltar a tempo do aniversário da filha.
A solução encontrada para voltar para casa chamou a atenção não só pela criatividade, mas também pela coragem: Spiers despachou a si próprio por avião num caixote de madeira.
Mas não se tratava de um caixote qualquer. Spiers trabalhou com despachos aéreos e sabia o tamanho máximo de caixote que as companhias aéreas aceitariam.
Pagamento posterior
Cintos de segurança ajudavam o australiano a se manter estável durante o transporte (Foto: Marcus McSorley/BBC)Cintos de segurança ajudavam o australiano a se manter estável durante o transporte (Foto: Marcus McSorley/BBC)
"Eu trabalhei na seção de carga e tinha visto animais chegarem bem o tempo todo. Pensei que, se eles podiam aguentar a viagem, eu também poderia. Não tenho medo de escuro, então não havia razão para ficar preocupado", contou o australiano à BBC.
Spiers também sabia que companhias aéreas aceitavam o despacho de encomendas com pagamento posterior, o que evitaria maiores suspeitas sobre a "carga".
O australiano encomendou o caixote a John McSorley, o amigo em cuja casa ele se hospedara em Londres. Com 1,5m de comprimento, 0,9m de altura e 0,75m de largura, o caixote foi feito de maneira a permitir que Spiers viajasse sentado, com as pernas estendidas, ou deitado com as pernas dobradas.
Ele pensou também num sistemas de bedelhos que o permitiria abrir o caixote por dentro. Havia ainda cintos de segurança para manter o ocupante numa posição estável durante operações de carga e descarga.
O despacho para a alfândega declarou que o caixote levava um carregamento de latas de tinta para uma fábrica de sapatos cujo nome e endereço eram fictícios.
Munido de lanterna, cobertor, travesseiro, comida enlatada e duas garrafas de plástico - uma para água e outra para a urina -, Spiers entrou no caixote e foi colocado num voo da Air India com destino a Perth, na Austrália. Spiers queria ir para a Adelaide, mas escolheu a outra cidade por ela contar com um aeroporto menor.
Infográfico - Caixa despacho (Foto: BBC)
A jornada começou com imprevistos: o mau tempo em Londres atrasou a partida do voo em 24 horas. E foi apenas com o avião já no alto, a caminho de Paris, que Spiers saiu pela primeira vez da caixa.
"Precisava muito urinar. Aliviei-me numa lata e a coloquei no topo da caixa. Estava esticando as pernas, mas foi quando o avião começou a descer. Tive medo e entrei de volta na caixa, mas a lata ficou", conta o Australiano.
Mas os carregadores de bagagem no aeroporto em Paris não desconfiaram da presença de um humano na carga, e sim acharam que colegas britânicos tinham pregado uma peça.
"Eles disseram uma coisas bem ruins sobre os britânicos."
De cabeça para baixo
A parada seguinte foi em Mumbai, na Índia. Lá, os carregadores puseram a caixa de cabeça para baixo. E a deixaram sob o sol escaldante por quatro horas.
"Estava tão quente que precisei tirar todas as minhas roupas. Teria sido engraçado caso me descobrissem naquele momento", diverte-se Spiers.
Ele percebeu que o avião finalmente chegara à Austrália quando reconheceu o sotaque dos carregadores que reclamavam com palavrões sobre o peso da carga.
Para promover o lançamento de um livro contando sua história, um modelo do caixote foi construído (Foto: Marcus McSorley/BBC)Para promover o lançamento de um livro contando sua história, um modelo do caixote foi construído (Foto: Marcus McSorley/BBC)
"Estava sorrindo de orelha a orelha por estar em casa, mas não iria deixar que me descobrissem naquele momento. Sabia que os carregadores levariam a caixa para um galpão, e quando me puseram lá eu saí da caixa na hora. Havia algumas cervejas no galpão. Eu não bebo, mas peguei uma das cervejas e tomei uns bons goles."
Depois de três dias, a aventura de Spiers estava muito perto do fim. Mas ele ainda precisava sair do galpão. A sorte voltou a sorrir para ele:
"Havia umas ferramentas no galpão. Abri um buraco na parede e saí. Não havia segurança, então vesti um terno que trouxera na mala e simplesmente fui para a rua tentar pegar caronas até Adelaide".
Teria sido o plano perfeito se Spiers não tivesse esquecido de avisar McSorley em Londres de que tinha chegado são e salvo. Depois de ficar dias sem notícias do amigo, o britânico alertou a mídia. A história de Spiers ganhou logo ganhou notoriedade.
Ele recebeu cumprimentos de políticos e a Air India decidiu não cobrar pela viagem.
O australiano conseguiu chegar em casa a tempo do aniversário da filha, mas demorou para convencer a mulher de que tinha percorrido meio mundo num caixote.
"Ela não acreditou em mim no começo, mas depois chegou à conclusão de que estava falando a verdade."
A aventura de Spiers não seria possível nos dias de hoje por causa das medidas de segurança que exigem inspeções rigorosas de carga antes de chegar aos aviões. Um clandestino seria logo detectado.
Jason CaffreyDa BBC

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